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Quando Brincar Era Exercício

Sabe por que as gerações anteriores eram menos obesas? Porque as crianças não eram sedentárias: não ficavam sentadas em frente ao celular, rolando a tela, jogando ou acessando informações que não deveriam. Também não passavam os dias em frente à televisão comendo salgadinhos, muito menos conversando pelo celular. Sabe como era?

Criança conversava com outras crianças olhando nos olhos, brincava se exercitando, assistia à televisão, mas não via a hora de brincar com os amigos. Jogava jogos de tabuleiro com outras crianças, e o lanche na escola era motivo de brincadeira e de comer junto com o coleguinha. Os lanches eram naturais, feitos pela mamãe: pão com ovo, almôndegas, às vezes um misto frio (queijo e presunto) e suco na garrafinha. Eu adorava quando era groselha.

As brincadeiras eram os exercícios físicos de hoje: ficar agachado e sair pulando era agachamento; brincar com vai e vem trabalhava o peitoral; bambolê afinava a cintura; pular corda era cárdio; pega-pega era cárdio; jogar peteca trabalhava cárdio e coxas; virar cambalhota ajudava no alongamento; andar de bicicleta era cárdio; vôlei era esporte; ciranda, dependendo do contexto, também envolvia agachamento; e amarelinha trabalhava o equilíbrio. Por isso, crescemos esbeltas e sem problemas maiores: nossas brincadeiras eram puro exercício físico.

Nas escolas, já existiam as aulas de educação física, em sua maioria em horários opostos aos das aulas, o que ajudava muito na disciplina e na constância. Muitas outras brincadeiras desenvolviam a memória e a habilidade. Hoje, as crianças não precisam memorizar nada, tampouco desenvolver habilidades para estimular o raciocínio: está tudo na palma da mão. Basta dar uma pesquisada no Google e a resposta aparece. Elas não se levantam para nada, apenas para jogar futebol, quando gostam, e para ir à escola. O sedentarismo hoje começa cedo, logo que começam a andar.

Por isso, temos crianças com doenças de adulto. Nunca tivemos tantas crianças doentes, com colesterol alto, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade, entre outras condições associadas ao sedentarismo e ao consumo de alimentos ultraprocessados. Embora se fale muito sobre alimentação e sobre a importância da atividade física, muitas crianças seguem na comodidade de uma cama ou de um sofá, passando o tempo em conversas virtuais e dando preferência a um pacote de salgadinho, hábito que pode custar caro em um futuro nada distante, que já bate à porta.

Talvez alguns pais jovens não concordem com essa teoria e digam que os tempos mudaram. Acontece que o tempo pode até mudar, mas os cuidados com a saúde das crianças não seguem moda: ou se cuida direito, ou haverá problemas. Não é necessário ser igual a todos; quem segue a boiada nunca aprende o caminho. Precisamos cuidar das crianças como sempre cuidamos: com sabedoria e responsabilidade, não apenas da saúde, mas também do caráter.

Adultização infantil

Já faz algum tempo que não estão tratam mais a criança como criança. Essa é a fase mais importante da vida, é onde começa a se formar o caráter de uma pessoa, é onde começam os primeiros ensinamentos da vida que moldarão a todos para a idade adulta. O que fazer para não inserir a criança no mundo adulto?

Primeiro é necessário que os pais ou o responsável pela criança tenha a noção de que a criança ainda está em processo de conhecimento e, para falar com ela, deve existir a preocupação de usar palavras e formas que a criança compreenda, de acordo com a idade. Não se fala com criança como se fala com um adulto, não é legal deixar a criança participar de assuntos que não é do mundo dela – nem tudo precisa saber, esse cuidado é muito importante.

O que tem acontecido no mundo atual é a exposição desacerbada diante da internet, principalmente em vídeos como Tik-Tok e Reels, com crianças fazendo dancinhas sensuais, falando como adultos. Algumas até viram influencers, ganhando curtidas e, não raro, com contratos com emissoras de televisão e patrocinadores, os quais os pais é quem gerem o negócio. Ou seja, não deixa de ser um trabalho infantil, pois tem obrigações com conteúdo para garantir o patrocínio. O excesso de telas certamente é o maior problema e causador do acesso, e, pior ainda, a influência que vídeos que circulam pela internet têm sobre as crianças, tornando-as ansiosas por quererem ser aquela pessoa da tela.

Naturalmente que sabemos que as crianças têm vida escolar regular e outras atividades, afinal os pais sabem (ou deveriam saber) bem das obrigações legais que se tem com um filho menor de idade. Tudo bem que a gente se derrete quando vê o filho fazer alguma coisa muito legal e quer divulgar, não acho de todo errado, mas tem que existir limite entre o mundo real e a fantasia. A criança não tem essa dimensão, essa é uma obrigação dos pais, que normalmente incentivam a exposição ou fazem vistas grossas às brincadeiras que os pequenos expõem nas redes sociais. A brincadeira é o meio de aprendizado da criança, se não tiver essa fase ficará cansada e desmotivada.

Os meninos também têm sua figura exposta, principalmente como influencer de jogos e também dancinhas na internet, se comportando como um mini adolescente. Entre os dois gêneros existe a vestimenta e aparência exacerbada pelo corpo, cabelo e roupas. As meninas ainda mais, maquiagem, acessórios e, inclusive, comportamento de mocinha, no andar e gestos. A criança torna-se vulnerável a informações e situações com as quais não sabe lidar.

 Certamente o mundo mudou muito nos últimos anos, mas a infância é curta, mas não por isso sem importância. É justamente por esse motivo que se deve dar mais atenção, aproveitar essa fase, que passa tão rápido, e fazer da vida das crianças um mundo muito feliz e repleto de brincadeiras, porque a vida adulta é longa e não tem brincadeira, quem brinca se dá mal.

Essa adultização causará muitos danos no futuro da criança, como lhe foi roubado o direito de ser criança, pode se tornar um adulto infantilizado, frustrado e vazio, despreparado para a vida adulta de verdade, afinal viveu essa fase fora da sua realidade cronológica de forma florida e fácil, mas que na verdade isso poderá lhe causar sérios problemas.

Se a criança pular essa fase vai dar um salto tão alto que lá na frente não saberá nem como chegou, e aí o mundo real vai apresentar situações que a brincadeira de criança pode se tornar um pesadelo, e isso não tem volta.