Consumir para pertencer

Vivemos uma época em que o desejo de consumir deixou de ser apenas uma escolha individual e passou a funcionar como uma pressão social constante. O problema não está em comprar, mas em transformar o consumo em medida de valor, pertencimento e felicidade.

Em um tempo não muito distante, criticávamos os pais que cediam aos desejos das crianças por insistência, vencidos pelo cansaço. Mal uma vontade era atendida, outra já surgia, e a satisfação parecia nunca chegar. Hoje, esse comportamento também aparece entre os adultos: muitos vivem compulsivos e inquietos pelo ter, como se aquilo que se conquista hoje já estivesse ultrapassado amanhã.

O dinheiro virou um elemento de poder. Mesmo quando não há recursos suficientes para todos os desejos, o consumo de bens tornou-se uma espécie de doença: a ansiedade por ter. O mercado alimenta esse ciclo vicioso com facilidades de compra pela internet, cupons de desconto, ofertas-relâmpago, datas promocionais e pagamento imediato no crédito ou no Pix. O produto parecia caro; depois, aparece como barato, mas muitas vezes o desconto apenas revela um valor que já havia sido inflado antes.

Tudo muda o tempo todo: as ofertas, os produtos e até a ideia de moda dentro de casa. Basta observar propagandas que dizem: “Se você ainda tem isso na sua cozinha, tire agora!”. Como assim? O azulejo caiu de moda? Os armários agora precisam seguir outro padrão? E o dinheiro para acompanhar tudo isso? Os aparelhos domésticos duram pouco, as roupas ganham novidades a todo instante, surgem liquidações de verão e inverno, e até a comida entra nesse ritmo de oferta permanente.

A economia gira em torno do consumismo desenfreado, dos impostos altos que pagamos em tudo e do salário do trabalhador, que muitas vezes se endivida com o que não precisa e fica sem o que realmente precisa. Enquanto isso, muitos adoecem mentalmente pagando juros no cartão de crédito que não conseguem quitar, mas continuam sustentando uma aparência, porque hoje a pressão não se limita ao corpo: também envolve ter aquilo que não se pode ter.

O mundo ficou sem graça. Antes, apesar dos problemas, víamos pessoas mais presentes e talvez mais felizes; a vida não era um reality, nem precisava exibir um faz de conta o tempo inteiro. Enquanto muitos compram o que não podem, empresas de todos os segmentos lucram com quem gasta o que não tem. No fim, os menos favorecidos continuam excluídos das regalias de quem enriquece à sombra de quem trabalha, em um mundo sarcástico que transformou a vida em palco e as pessoas em atores de máscara.

Quando Brincar Era Exercício

Sabe por que as gerações anteriores eram menos obesas? Porque as crianças não eram sedentárias: não ficavam sentadas em frente ao celular, rolando a tela, jogando ou acessando informações que não deveriam. Também não passavam os dias em frente à televisão comendo salgadinhos, muito menos conversando pelo celular. Sabe como era?

Criança conversava com outras crianças olhando nos olhos, brincava se exercitando, assistia à televisão, mas não via a hora de brincar com os amigos. Jogava jogos de tabuleiro com outras crianças, e o lanche na escola era motivo de brincadeira e de comer junto com o coleguinha. Os lanches eram naturais, feitos pela mamãe: pão com ovo, almôndegas, às vezes um misto frio (queijo e presunto) e suco na garrafinha. Eu adorava quando era groselha.

As brincadeiras eram os exercícios físicos de hoje: ficar agachado e sair pulando era agachamento; brincar com vai e vem trabalhava o peitoral; bambolê afinava a cintura; pular corda era cárdio; pega-pega era cárdio; jogar peteca trabalhava cárdio e coxas; virar cambalhota ajudava no alongamento; andar de bicicleta era cárdio; vôlei era esporte; ciranda, dependendo do contexto, também envolvia agachamento; e amarelinha trabalhava o equilíbrio. Por isso, crescemos esbeltas e sem problemas maiores: nossas brincadeiras eram puro exercício físico.

Nas escolas, já existiam as aulas de educação física, em sua maioria em horários opostos aos das aulas, o que ajudava muito na disciplina e na constância. Muitas outras brincadeiras desenvolviam a memória e a habilidade. Hoje, as crianças não precisam memorizar nada, tampouco desenvolver habilidades para estimular o raciocínio: está tudo na palma da mão. Basta dar uma pesquisada no Google e a resposta aparece. Elas não se levantam para nada, apenas para jogar futebol, quando gostam, e para ir à escola. O sedentarismo hoje começa cedo, logo que começam a andar.

Por isso, temos crianças com doenças de adulto. Nunca tivemos tantas crianças doentes, com colesterol alto, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade, entre outras condições associadas ao sedentarismo e ao consumo de alimentos ultraprocessados. Embora se fale muito sobre alimentação e sobre a importância da atividade física, muitas crianças seguem na comodidade de uma cama ou de um sofá, passando o tempo em conversas virtuais e dando preferência a um pacote de salgadinho, hábito que pode custar caro em um futuro nada distante, que já bate à porta.

Talvez alguns pais jovens não concordem com essa teoria e digam que os tempos mudaram. Acontece que o tempo pode até mudar, mas os cuidados com a saúde das crianças não seguem moda: ou se cuida direito, ou haverá problemas. Não é necessário ser igual a todos; quem segue a boiada nunca aprende o caminho. Precisamos cuidar das crianças como sempre cuidamos: com sabedoria e responsabilidade, não apenas da saúde, mas também do caráter.