A TV que não entretém

Liguem os seus aparelhos de TV, é hora de entretenimento.  O que você acessa que pode ser chamado de entretenimento? Programas de humor, geralmente acabam por humilhar alguém. Novelas, sempre tem um ou mais personagens que passam os seis, sete meses no ar armando contra alguém, parece que vivem para isso. Reality show, o nome, norte-americano, até que é bonito, mas entreter o quê? Gente brigando, falando mal do outro, choro, bebedeira. Definitivamente, não é entretenimento.

O que vale a pena mesmo é programa de entrevista; e tem ótimos programas, e canais de streaming com filmes, séries, documentários, musicais que realmente te desligam do cotidiano violento que vivemos.

Essa semana, pós morte de Sílvio Santos, muitas matérias foram feitas a respeito do homem do entretenimento aos domingos. Realmente, ele foi o único animador de plateia, comunicador, apresentador de TV, que fez da televisão, não só aos domingos, mas todos os dias, com sua programação única, a alegria de milhões de brasileiros.

As novelas Carrossel e Chiquititas, as quais fizeram uma geração cantar, dançar, vestir as roupas das meninas, uma febre dos anos 90, mas inesquecível. A série do “Chaves”, passou durante muitos anos, ficaram famosos no Brasil por causa do SBT e programas como do Gugu e Eliana seguiram na mesma linha.

Sílvio Santos foi um idealizador da TV da família, aquela de reunir todos aos domingos, um dia em que não se tem nada pra fazer, e ele entendeu como poderia promover essa união. O conjunto “Titãs” falou sobre a importância dele no começo da carreira do grupo, o espaço que o programa deu a eles com participações em vários quadros. Até compuseram uma música chamada “Domingo” inspirada no programa Sílvio Santos, e na letra mencionam o seu nome e falam sobre o que é o domingo.

Para você que está lendo não sei, mas eu gostaria de ligar a TV e poder relaxar de verdade com programas mais leves. Não quero ver assassinos tendo ibope em quase todos os canais, não quero ver novelas que só propagam a maldade, as armações, o poder e o dinheiro, não quero assistir jornal e saber só de coisas ruins, não quero saber só de doenças, quero saber de saúde e curas; não tem nada de bom acontecendo?

Então por que quando saímos não vemos esse mundo sujo que os noticiários insistem em mostrar? Acontecem as coisas? Sim, acontecem, mas também tem coisa boa por aí e gente boa também, a maldade dá audiência e aumenta o medo.

Precisamos sorrir mais, rir até doer a barriga, passar a hora colocando a cabeça para pensar assistindo um bom filme, aprender com uma boa entrevista, ver gente bonita, assistir gente conversando de coisas boas, assistir um musical, e lembrar que amanhã tem mais vida, tem mais um dia para viver e ser feliz.

As emoções nas crianças

Já ouviu falar em educação socioemocional? É um programa para implementar nas escolas para crianças e adolescentes. Mas o que é isso? É um processo de ensino e aprendizagem no âmbito social, comportamental, pensamentos e emoções, aprender a ter resiliência, empatia com os outros, no caso da escola com amigos, professores, funcionários, para a vida.

Estamos num mundo onde as crianças estão expostas a todo tipo de informação, como a violência, a falta de controle de adultos sendo exemplo para crianças, palavreado inadequado, valores, educação e respeito deixados de lado.

Nunca tivemos tantas crianças com ansiedade, depressivas e consumistas, é comum vermos as exigências mais absurdas pelo consumo, pelo simples fato de ter. O consumo e o descarte de coisas por outras que dizem ser mais avançadas, mas que na verdade é um ponto aqui ou nada apenas para vender, para ganhar, para enlouquecer.

Daí os problemas emocionais em crianças! Vivem como adultos sedentos pelo novo, desfazem de colegas que não têm o objeto de desejo do momento, praticam o bullying, seus valores é o quanto custa, não o que vale a pena. Precisam de ajuda.

Este artigo estava pronto ontem (21 de agosto), quando li uma matéria sobre um garoto negro, gay, da periferia de São Paulo e bolsista do colégio Bandeirantes, um dos mais caros da cidade. O garoto de 14 anos sofria bullying há um ano e meio, desde que conseguiu a bolsa através de um processo seletivo rigoroso para alunos de baixa renda acessarem colégios de classe alta. Avisou a mãe o que estava acontecendo, sofria com a situação, e ela tentava acalmá-lo, mas o garoto deixou de falar no assunto. O gesto desesperado do garoto aconteceu no dia 12 de agosto, quando ele saiu de casa para ir à escola, mas não chegou, tirou a própria vida no caminho.

A escola aderiu ao programa ‘convivência positiva’ depois de muitos fatos ocorridos na unidade em relação a comportamento. A escola não pode ajudar sozinha, tem que haver a colaboração da família para que a disciplina seja alcançada, senão nada disso surtirá efeito. A educação começa em casa, e a família não pode deixar nas mãos da escola a educação dos bons modos e respeito. O adulto de amanhã será exatamente o que aprendeu em casa, e não na escola.

Resgatar a educação não é careta, é necessidade social, é saber que não se pode tudo e nem falar tudo o que pensa, a resiliência é que ajuda a criança a se transformar ou superar traumas. A empatia, saber se colocar no lugar do outro, ‘o que você não quer pra você não faça para o outro’. Ou seja, aprender a lidar com suas próprias emoções e a dos outros também, não achando que o problema do outro não lhe diz respeito, e desta forma sentindo-se mais importante e valorizada.

A escola não educa, a educação vem de casa, mas a escola pode nutrir esses valores, além de instruir didaticamente. São pequenas atitudes no dia a dia que transformam, mas os pais também precisam participar, isso é parceria, e principalmente para seu filho.

Silvio Santos vem aí. Para a eternidade

A morte do comunicador Silvio Santos, sem dúvida, foi a maior cobertura jornalística vista nos últimos anos, até por conta da falta do sensacionalismo existente em mortes de celebridades, mas ele mesmo pediu para que não fosse visto morto. E eu concordo plenamente. Qual a intenção de as pessoas virem uma figura tão querida e consagrada, durante setenta anos de pura alegria, morto no caixão? O choro, a curiosidade, o adeus?

A imagem que sempre achei que devemos ter de qualquer pessoa que se vá é de quem ela foi, do que de bom deixou. A morte é um fato natural da vida, mas é dura e jogada como um balde de água fria. Acabou.

Quem foi Silvio Santos, o homem alegre, sorridente, que comandava uma emissora de televisão e estava à frente de um dos programas mais assistidos e adorados pelo povo brasileiro? Quem era o Senor Abravanel?

Foi um homem com sonhos e um talento para a comunicação que, muito novo, foi descoberto e teve a oportunidade de mostrar a que veio. Não nasceu em berço de ouro, não tinha vergonha de dizer que foi camelô. Sabia que para chegar aonde sonhava precisava batalhar e correr riscos, e foi o que fez. Mas nunca deixou que suas conquistas o deixassem olhar só para cima, olhava dos lados, e também para baixo.

Agia com seus funcionários com justiça e respeito, o que sempre falo nas minhas crônicas; a base de tudo é o respeito. Sabia reconhecer os méritos, mas os erros também, era justo com quem merecia, ajudava, sabia das aspirações de cada um de seus artistas, e respeitava suas escolhas. Ele não teve sorte, foram suas boas ações que o tornaram reconhecido, aclamado e querido pelo povo. ‘Quem faz o bem recebe o bem, e vice-versa também’.

Naturalmente que não sabemos dos bastidores de sua vida íntima, e não precisamos saber disso, conhecemos o comunicador, aquele que sempre com um sorriso e bom humor falava com milhões de pessoas todos os domingos, sua presença era só alegria, e o que mais colocamos dentro de nossas casas todos os dias através da televisão são apenas péssimas notícias, morte, maldade, inveja. Por isso ele falava: “Vamos sorrir e cantar”.

Mas agora o povo brasileiro terá que se acostumar sem o Silvio Santos, embora estivesse fora das câmeras havia algum tempo, mas certamente comandava de casa; agora não, sua linda missão na Terra foi cumprida. Suas filhas herdam o legado, só o futuro dirá como será.

Do Senor Abravanel pouco sabemos das controvérsias, só sabemos do que de melhor ele fez, e muitos deveriam seguir, mas os bons exemplos não querem, porque os maus exemplos são mais fáceis e rápidos de conquistar o topo, não importa a que preço, só interessa aonde vai chegar, e esse topo nunca tem fim. Um dia cairão, é rápido também, não terão homenagens, não serão lembrados e tampouco consagrados pela eternidade. A vida é de escolhas, as consequências também. “Da vida não se leva nada, vamos sorrir e cantar” (Silvio Santos). Tudo o que ele conquistou ficou aqui, e ele sempre soube que assim seria.

A língua portuguesa do Brasil mais americanizada

Quando nos deparamos ou somos chamados para uma vaga de emprego, uma das principais exigências é inglês fluente. Alguém já te perguntou se você domina sua língua? Claro que não, o importante é saber falar inglês, escrever na língua inglesa e usar termos em inglês o tempo todo, até mesmo para decifrar o que significa aquela vaga. Está cada vez mais difícil compreender as expressões usadas nas ofertas de vagas de emprego.

Você pode ter todos os atributos para aquela vaga, inclusive experiência, escrita em português impecável, saber interpretar um texto; difícil para os dias de hoje, gramática, pontuação, responsabilidade, mas se não tiver inglês fluente, bye bye. O importante é arrumar um job no qual você possa mostrar seu know-how em leads. Ter um mailing e ser multitasking e ter um bom network

Durante as olimpíadas, a ginasta Rebeca Andrade foi indagada se falava em inglês, e ela, muito educada e sensata que é, respondeu que sim, mas não fluentemente. Se sente mais à vontade em falar em português, porque é brasileira. Achei sensacional sua resposta, de fato temos o dever de prestigiar e falar muito bem a nossa língua. Do que vale ser fluente em inglês e escrever ou falar errado a própria língua? Com quantos sites de notícias nos deparamos todos os dias com erros grotescos que passam batido, talvez um ou outro seja fluente no inglês, mas precisa escrever em português.

O brasileiro é o povo mais americano que existe, valoriza não só a língua, mas tudo que vem de lá, e desfaz do seu próprio país. Precisamos saber outras línguas? Sim, é importante, mas não precisamos americanizar tudo, podemos usar o nosso vocabulário, que é tão rico, com palavras formais ou informais que têm o mesmo significado.

Como digo no segundo parágrafo: ‘O importante é arrumar um emprego onde você possa mostrar seu conhecimento em descobrir clientes em potencial. Ter capacidade de executar sua função com uma boa rede.’ Ok?

Simplesmente falar em português, você entende, todo mundo entende.

O feminicídio tratado com arrogância

Hoje não pretendia voltar ao tema ‘violência contra a mulher’, mas me vi obrigada porque algumas situações são inadmissíveis e exigem posicionamento. No fim de semana presenciei a atitude de dois indivíduos, um tanto duvidosos, em um local público. O lugar estava cheio, principalmente de casais, quando, para a infelicidade de todos, esses dois entraram e, apenas bebendo, falavam alto e com arrogância, para que todos pudessem ouvir, sobre crimes contra a mulher, qualquer mulher, incluindo a de um deles.

Não vou contar os detalhes sórdidos dessa triste cena que presenciei, mesmo porque parecia uma cena ensaiada, com a intenção de provocar. Ninguém se manifestou, ninguém ali estava com a mesma intenção deles, apenas um momento de descontração, mas não foi o que aconteceu. Hoje venho pedir uma reflexão não apenas pelo comportamento do ser humano, mas, principalmente, pela índole provocativa, pelo chamado à confusão, pelo propósito simplesmente de incomodar com propostas graves, mas que aos olhos de um ser nitidamente sem nada de melhor a oferecer, chama atenção pelas próprias insanidades e maledicências, como se fosse um troféu.

Nossa sociedade vive em constante tensão nos abusos contra a mulher, por mais que se fale no assunto, parece que querem aparecer mais e mais, como se isso fosse um direito do homem para ganhar o título de poderoso. Isso não existe, definitivamente estamos em outro patamar, onde o machismo não cabe mais, muito menos o feminicídio falado abertamente em alto tom para quem quiser ouvir, e sem represálias, como de fato aconteceu.

Certamente o fim está mais próximo do que imaginamos, estamos num momento de absurdos, pessoas atropelando outras pessoas sem dó, carros sendo jogados para cima de propósito – com a intenção de matar, tiros por puro ‘nervosismo’, a palavra é bem outra. E agora matar é motivo de orgulho, e todos têm que saber disso, gera medo.

Segundo o portal do G1, em reportagem publicada em 3/7/2024,” 0 Brasil registrou 1.463 casos de mulheres que foram vítimas de feminicídio no ano passado — ou seja, cerca de 1 caso a cada 6 horas. Esse é o maior número registrado desde que a lei contra feminicídio foi criada, em 2015.” É inadmissível que ainda haja homens tão inescrupulosos que falem em alto e bom tom sobre matar uma mulher. Não existe nada que justifique matar alguém, muito menos se orgulhar disso. Pior do que falar é afirmar que faz e que essa é a maneira de punir uma mulher.

Até quando teremos que conviver com isso? Estamos no segundo milênio, no século XXI, já se passaram vinte e quatro anos do início, tudo mudou. As mulheres hoje contam com leis a seu favor, não existe mais inocente, não existe mais o medo e a vergonha de falar sobre o que acontece dentro de casa. Se existe homem que ainda acha que tem que matar a mulher, então também existe lei que leva pra cadeia homem assassino.

Não podemos mais admitir isso, mulher é um ser humano, trabalha, estuda, vive. Espero ainda ver mais amor do que ódio, mais respeito, mais educação. Sim, isso também é educação; incomodar é falta de educação, mas se vangloriar de matar, isso é o fim.

Adultização infantil

Já faz algum tempo que não estão tratam mais a criança como criança. Essa é a fase mais importante da vida, é onde começa a se formar o caráter de uma pessoa, é onde começam os primeiros ensinamentos da vida que moldarão a todos para a idade adulta. O que fazer para não inserir a criança no mundo adulto?

Primeiro é necessário que os pais ou o responsável pela criança tenha a noção de que a criança ainda está em processo de conhecimento e, para falar com ela, deve existir a preocupação de usar palavras e formas que a criança compreenda, de acordo com a idade. Não se fala com criança como se fala com um adulto, não é legal deixar a criança participar de assuntos que não é do mundo dela – nem tudo precisa saber, esse cuidado é muito importante.

O que tem acontecido no mundo atual é a exposição desacerbada diante da internet, principalmente em vídeos como Tik-Tok e Reels, com crianças fazendo dancinhas sensuais, falando como adultos. Algumas até viram influencers, ganhando curtidas e, não raro, com contratos com emissoras de televisão e patrocinadores, os quais os pais é quem gerem o negócio. Ou seja, não deixa de ser um trabalho infantil, pois tem obrigações com conteúdo para garantir o patrocínio. O excesso de telas certamente é o maior problema e causador do acesso, e, pior ainda, a influência que vídeos que circulam pela internet têm sobre as crianças, tornando-as ansiosas por quererem ser aquela pessoa da tela.

Naturalmente que sabemos que as crianças têm vida escolar regular e outras atividades, afinal os pais sabem (ou deveriam saber) bem das obrigações legais que se tem com um filho menor de idade. Tudo bem que a gente se derrete quando vê o filho fazer alguma coisa muito legal e quer divulgar, não acho de todo errado, mas tem que existir limite entre o mundo real e a fantasia. A criança não tem essa dimensão, essa é uma obrigação dos pais, que normalmente incentivam a exposição ou fazem vistas grossas às brincadeiras que os pequenos expõem nas redes sociais. A brincadeira é o meio de aprendizado da criança, se não tiver essa fase ficará cansada e desmotivada.

Os meninos também têm sua figura exposta, principalmente como influencer de jogos e também dancinhas na internet, se comportando como um mini adolescente. Entre os dois gêneros existe a vestimenta e aparência exacerbada pelo corpo, cabelo e roupas. As meninas ainda mais, maquiagem, acessórios e, inclusive, comportamento de mocinha, no andar e gestos. A criança torna-se vulnerável a informações e situações com as quais não sabe lidar.

 Certamente o mundo mudou muito nos últimos anos, mas a infância é curta, mas não por isso sem importância. É justamente por esse motivo que se deve dar mais atenção, aproveitar essa fase, que passa tão rápido, e fazer da vida das crianças um mundo muito feliz e repleto de brincadeiras, porque a vida adulta é longa e não tem brincadeira, quem brinca se dá mal.

Essa adultização causará muitos danos no futuro da criança, como lhe foi roubado o direito de ser criança, pode se tornar um adulto infantilizado, frustrado e vazio, despreparado para a vida adulta de verdade, afinal viveu essa fase fora da sua realidade cronológica de forma florida e fácil, mas que na verdade isso poderá lhe causar sérios problemas.

Se a criança pular essa fase vai dar um salto tão alto que lá na frente não saberá nem como chegou, e aí o mundo real vai apresentar situações que a brincadeira de criança pode se tornar um pesadelo, e isso não tem volta.  

De repente 60. E agora?

De repente 60. Seis décadas já se passaram, seis fases da vida foram cumpridas com sucesso – sucesso aqui é vida, não importa o porém, você sobreviveu. Quantas coisas passaram pela sua vida, quantas pessoas conheceu, umas ficaram, outras foram de passagem, outras se foram para nunca mais.

Nossas lembranças não esquecem jamais, é bom lembrar das coisas boas, não viver do passado, mas olhar para trás e ver quanta coisa já fez e aprendeu, e ainda não sabe tudo, e nem saberá. Quantas alegrias e tristezas, desafios, acertos e, principalmente, se orgulhar de quem você é. Isso é o principal de tudo na vida, olhar o seu caminho e saber que, apesar dos erros, tudo faz parte para chegar ao acerto, foram vencidas todas as etapas, e você está aqui para contar.

Esta semana completei minhas seis décadas, está só começando, mas estou feliz em chegar nessa fase, e lembrar de tudo o que aconteceu nesses sessenta anos de muita história para contar, das quais me orgulho muito. No entanto, quis colocar minha reflexão no papel, e assim colocar para refletir quem também já chegou, está chegando e ainda vai chegar.

Talvez tenha quem se assuste com a idade, mas é apenas um número, não é uma sentença, e quem faz esse número ser um peso é você. Quem disse que é tarde para se realizar um sonho, que agora é contagem regressiva, que você está velho, não sabe o que é viver intensamente.

Sonhos, quando a gente deixa de ter, é porque você está no seu fim; contagem regressiva a gente faz desde que nasceu – ninguém sabe o dia de amanhã, lembra da crônica do dia 11 de julho? Velho, só se quiser, só se sua cabeça envelhecer, se o tempo te fizer achar que não serve mais. Enquanto há vida soprando, cabeça boa e alegria de viver, haverá vida.

 Nesta fase já não temos mais o tal colágeno e nem o corpo de antes, mas carregamos experiências que naqueles anos nem sabíamos o que viria pela frente. Hoje, embora o viço da juventude já tenha ido, continuamos jovens pelo viço da sabedoria, da sensatez de saber quando falar e quando se calar, dar valor ao que realmente merece ter valor, fazer apenas o que quer, e se quiser. Ter consciência de quem você é, e não se importar com o que os outros vão falar. Enquanto falam sua vida continua indo muito bem, e assim não perde tempo em se preocupar com coisas pequenas.

Um dia fomos criança, jovens, adultos e agora, da melhor idade. Quanta coisa passou, quanto aprendemos, saímos de situações difíceis, mas agora vamos descobrir o que a melhor idade tem a nos ensinar. Deve ser melhor, porque já passamos no vestibular da vida, e agora, com calma, vamos entendendo tudo o que passou sem pressa. Vivendo, trabalhando, curtindo a vida e a família e sendo chatos, não dizem que idoso é chato?  Só fica chato quem chega até aqui, então bora viver mais algumas décadas? Mais sessenta vai ser difícil, mas ainda tem um tempo.

De onde vem tanta fúria?

Quando estávamos passando pela pandemia, acreditávamos que as pessoas sairiam daquela situação muito melhores, mais humanas. Mas o que parece hoje é que está totalmente ao contrário, o humano ou enlouqueceu ou colocou seu lado animal para fora.

De onde estão surgindo tantas pessoas furiosas? Qual o verdadeiro motivo para tanta raiva e falta de controle? Está perigoso até pedir licença, alguém pode se invocar com você. ‘Por que quer passar exatamente agora que eu estou aqui’? Esse simples gesto pode se tornar uma agressão.

São tantas as bizarrices que vemos todos os dias que não sei quando foi que tudo isso começou. O mundo em que vivemos hoje está muito acelerado, e, com muita cobrança de todos os tipos, ninguém mais vive o presente; a vida passou a ser o futuro desesperador por estar dentro dele. Ninguém mais sabe resolver uma situação conversando, tendo a paciência tão necessária para nosso autocontrole. Isso não justifica. Desde quando se compensa a raiva matando, agredindo, humilhando alguém?

 Apesar de todos os problemas atuais (muitos dos quais nem são um problema de fato), devem invadir a vida do outro? Precisamos urgentemente de uma saúde pública mental realmente atuante e de qualidade, para que possamos ter uma sociedade mais equilibrada e que enxerguem os fatos como fatos, e não como provocação. O que será do futuro se isso não tiver um olhar para uma solução urgente? Vamos matar uns aos outros como os animais famintos brigando pela sua presa?

 Como podemos acreditar nas próximas gerações se estão sendo criadas por adultos descontrolados? Não adianta, os exemplos vêm de casa, não podemos esperar pessoas equilibradas que estão sendo criadas por desequilibrados.

Para isso é importante que haja, de uma vez por todas, leis mais severas para punir quem comete atos perigosos de fúria. Não podemos viver numa sociedade onde cada um faz o que quer sem que haja punição.

Precisamos retroceder para reencontrarmos as regras de educação que existiam antes de tudo isso, não é pedir demais educação das pessoas, uma conduta civilizada, não vivemos na selva, vivemos em cidades de concreto onde habitam seres humanos, pelo menos é o que existia antes.

Não adianta querer civilizar as crianças dentro de escolas com regime militar se os pais não são civilizados, a menos que os filhos passem a criar os pais, talvez seja isso que venha a acontecer.

Nosso mundo mudou, apesar de todas as inovações, mudou para pior. O que veio para ajudar e melhorar na comunicação, conseguiram tornar uma arma do mal, enganando, roubando e invadindo a privacidade de vidas. As facilidades fizeram tudo se tornar possível, inclusive o controle de uns sobre os outros, pior de tudo, na palma da mão. E hoje é o que vemos, pessoas achando que podem tudo, inclusive agredir.

As palavras ferem, podem inclusive adoecer uma pessoa, sair falando o que pensa não é uma boa ideia, tudo tem limite, inclusive a falta de educação, ninguém é melhor do que ninguém, ninguém é dono de nada, se soubermos respeitar os outros já estaremos ganhando, e sem precisar ofender ou gritar, ou, até mesmo, matar.

Esperamos um mundo melhor, esperamos que a próxima geração traga um pouco mais de conduta nas relações sociais, mais empatia e respeito. O mundo é para todos, mas não precisa dessas pessoas para continuar, precisamos de mais amor. Na próxima vez que achar que pode ofender o outro só porque você não gosta, se coloque no lugar, e sinta se gostaria que fizessem o mesmo com você. Acho que não, o covarde ofende porque não sabe se defender, minimizar o outro é o que o faz se sentir feliz.

O que será do amanhã?  

Quantas vezes você deixou para fazer alguma coisa amanhã? Muitas, sem dúvida. E quantas vezes parou para pensar que o amanhã pode não chegar? Bem provável que nenhuma.

Vivemos tão certos de que estaremos aqui para sempre que não nos damos conta de que estamos apenas numa viagem, que um dia chegará ao fim, e pode ser amanhã, que você deixou para ir a algum lugar, visitar alguém que você ama e dizer eu te amo.

Não defendo que devemos viver extremamente preocupados com isso, senão seria horrível viver esperando o dia chegar, mas devemos dar mais atenção às pequenas coisas, que não são tão pequenas assim. Dar atenção a alguém, ou fazer aquilo que está esperando por tanto tempo, pode ser mais importante do que adiar um dia. E quantas coisas fazemos em um dia! Embora não pareça, nenhum dia acaba sem termos feito nada.

A rotina e as inúmeras questões que acontecem todos os dias nos levam a uma vida pesada e maçante. No trabalho quase não se vê mais uma pessoa procurar outro emprego, porque quer apenas mudar para um salário melhor ou um lugar diferente. Não raro, saem doentes da mente por excessiva exaustão, pelos inúmeros assédios sofridos, que acabam com as relações, não só no trabalho, mas também na família. É tanta a exaustão que não encontramos tempo e nem vontade de estarmos com as pessoas que realmente valem a pena em nossa vida. E desta forma deixamos para amanhã.

Também existe a incessante busca pelo material, pela beleza, para agradar e estar inserido nesta loucura que se tornou a vida. Acaba em frustração, em desânimo, doença. E essas buscas também são responsáveis por nos afastar do que realmente importa. Sorrir, sentir-se feliz em estar com quem se gosta, se sentar no chão sem se preocupar com o que vão falar, brincar com seu filho, dançar, cantar, pé na areia, contemplar o sol.

O amanhã pode não chegar ou não te dar a chance de fazer o que deixou para trás, e amanhã poderá estar doente, cansado, desanimado ou sem tempo. Amanhã pode chover, o mundo pode acabar, você pode morrer, pode não acordar. Faça da sua vida o melhor que puder, mas jamais esqueça o que realmente te faz feliz. Cada dia que passa é um dia a menos, então aproveite sua vida da melhor maneira, não se preocupe com coisas, se preocupe com as pessoas que valem a pena. Não deixe para amanhã, o momento é agora.

Os fins que enfrentamos

Tudo um dia chega ao fim, independentemente da sua vontade. A vida, uma relação, o trabalho, uma amizade. São muitos os fins com os quais dificilmente sabemos lidar, mas que, com o famoso tempo, tudo passa e descobrimos que podemos continuar sem, por mais estranho e doloroso que possa ser no início, quando sofremos e negamos, mas passa.

Por que falar no fim se a vida é linda? Por que a vida já começa sabendo que tem um fim, então como podemos carregar a ilusão de que nada acaba? Caso a dor e as situações que precisamos resolver não acabassem, jamais conheceríamos a felicidade.

A criança, quando nasce, está com o seu livro totalmente em branco, tem tudo para aprender, mas assim que começa a entender também já começa a sua vivência, e assim se apresenta o sim e o não, causando sentimentos, reações que serão trabalhados ao longo da vida, e nunca acabam.

Tudo o que aprendemos na infância terá impacto determinante na vida adulta, e se não formos bem-preparados, não aceitaremos a dura realidade que a vida nos mostra diariamente, e nisso faz parte o fim, o qual muitos não aceitam e acabam cometendo insanidades em nome da recusa.

Certo dia, fiz um comentário numa conversa informal sobre mostrar aos filhos que a vida não é cor de rosa, para que mais tarde não tenham a dura realidade jogada na cara, e não encontrem o aconchego de pai e mãe, mesmo porque a vida lá fora é uma luta diária. Fui repelida com a resposta: ‘Sempre vou dar tudo o que as minhas filhas quiserem.’ Ok, hoje são adultas e ele já não é mais um menino, será que escolheu o melhor caminho? Não sei, mas o mundo que estamos vivendo hoje não é nada cor de rosa, imagina para quem recebeu tudo de mão beijada ter que enfrentar esse ringue sem um protetor?

Eu ainda prefiro à moda antiga, quando os pais nos mostravam a vida como ela é, feliz mesmo não tendo tudo o que quer, aconchego pelo calor do abraço dos pais, não pelo jogo do momento ou do que tudo mundo tem (é momentâneo), e saber que nada dura para sempre, nem nossos pais, nem os presentes, nem nós. Crescemos, sonhamos, realizamos alguns sonhos e outros não, conhecemos a tristeza e a felicidade, o amor e o ódio, a escassez e a bonança. Sobrevivemos e, apesar de tudo, ainda somos felizes.

E quem nunca conheceu o fim chegará um dia em que terá que conhecer, e vai descobrir que o mundo não é tudo, é mais nada do que tudo, porque o tudo foram seus pais que te deram, mas lá fora tem quem insiste em tirar o seu tudo. Não tem cafuné, tem mensagem fria te colocando ao par do fim. E serão muitos os fins.

Crônicas, artigos e críticas literárias