Nesta semana, as redes sociais foram tomadas por uma onda de nostalgia dos anos 80. Roupas, cabelos, músicas, cores e alegria voltaram à cena, despertando até em quem não viveu aquela década a vontade de conhecê-la, ainda que apenas na imaginação.
O movimento começou a ganhar força no fim dos anos 70, em Nova York, quando comunidades negras, latinas e LGBTQIA+ encontraram nas discotecas espaços de liberdade, convivência e dança. Foi nesse contexto que a música disco se consolidou, influenciada pelo soul, pelo funk e por outros estilos que projetaram grandes nomes da música americana.
A discoteca logo se popularizou nos Estados Unidos, e o Studio 54 tornou-se um dos símbolos mais famosos desse período. No Brasil, o estilo começou a ganhar espaço em 1977 e virou febre em 1978, impulsionado pela novela “Dancin’ Days”, um marco da cultura disco no país. Rio de Janeiro e São Paulo estiveram entre as cidades pioneiras, com casas noturnas como a Papagaio, do empresário Ricardo Amaral.
Sem dúvida, muita coisa marcante aconteceu naquela década. Surgiram grandes bandas nacionais e internacionais; as roupas eram coloridas, os cabelos extravagantes e a maquiagem, marcante. Começava-se a falar em computadores, mas eles ainda não ocupavam o centro da vida cotidiana. Vivíamos sem flashes constantes nem exposição: as fotos só podiam ser vistas depois de reveladas, e isso demorava. Os encontros com amigos ou com aquela paquera eram combinados pelo telefone fixo de casa. Saíamos sem celular e sem GPS; simplesmente íamos.
Os problemas existiam, mas pareciam ter outra dimensão. A vida era mais simples — não necessariamente por causa do dinheiro, mas porque havia menos exposição e mais espaço para viver sem tanta preocupação. Na lembrança, aquele tempo tinha cor, cheiro, sol, música e muita alegria.
Recentemente, publiquei uma biografia sobre a minha família e nela falo sobre a época mágica dos anos 80. Foi quando vivi a adolescência, frequentei muitas discotecas em São Paulo, fiz amigos, conheci meu marido, trabalhei em um lugar que amava e descobri minha paixão pela escrita.
Entrei na trend dos anos 80 não para descobrir como eu ficaria, mas para reviver a felicidade que sentia naquela época. A brincadeira não trouxe apenas saudosismo; despertou a vontade de resgatar quem fomos e a leveza de um tempo que já passou. É disso que sentimos falta: dos objetos menos sofisticados, das músicas que ainda hoje nos acompanham, da família reunida à mesa e dos momentos em que não fazíamos nada além de pensar.
Quanta coisa se foi. Hoje, nossas expectativas são outras. A questão já não é apenas saber se o mundo vai acabar ou como será o amanhã; mesmo com tanta tecnologia, tudo pode mudar sem aviso. Também não sabemos o que o futuro nos reserva: medo, incerteza ou esperança. Nossos filhos e netos serão felizes? O que virá?
A saudade e a vontade de reviver tudo aquilo revelam o quanto o ser humano está cansado de viver em um mundo tão inseguro e doente. Mesmo quando desejamos uma vida diferente, nem sempre encontramos espaço para construí-la. Ainda assim, ninguém pode nos tirar a lembrança: apesar dos problemas, éramos mais felizes porque vivíamos os momentos sem a preocupação de mostrá-los. A família, os amigos e as festas permanecem guardados na memória. O tempo não volta, mas aquilo que vivemos continua em nós.