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Positividade tóxica

Tenho ouvido falar sobre positividade tóxica, mas é possível a positividade ser tóxica? Mais uma vez venho levantar um assunto que divide opiniões. Bem, se estou falando alguma coisa que pode te fazer bem, refletir; caso esteja precisando de um incentivo, falar coisas boas e não estar reclamando ou levantando assuntos que estressam, por que haveria de ser tóxico?

Acredito que tenha um teor irritante para quem gosta de uma confusão, afinal para que parar um pouco e ouvir alguma coisa boa, se ligar o automático todos os dias como se a vida não tivesse solução é melhor? Sair estressado é muito mais atual.

Existe realmente um pessoal que percebeu que tem muita gente se valendo de um assunto sério, que é a saúde mental, que quase ninguém consegue manter, para se promover. Isso depende do que você mais acredita, se está sempre ligado em qualquer coisa que passa no seu feed e acha que tudo é real, certamente vai acreditar também em quem está apenas querendo ser mais um ser puro e cheio de valores.

Quando comecei a fazer minhas primeiras crônicas, lá em 2014, vi na rua, parada no farol, uma frase de muro que dizia: ‘O que você não fez ainda hoje?’ E isso não me deu raiva e nem achei que era uma positividade tóxica. Logo percebi um fundo bastante reflexivo, e além de parar para pensar na frase, foi minha primeira crônica. No final vou deixar para que vejam.

Por isso acredito que depende muito da maneira como você lê, qual o seu estado de espírito naquele dia, ou ainda, como enxerga a vida ao seu redor. E vamos falar a verdade, não precisa sair soltando os cachorros só porque ouviu uma frase legal, ou melhor, de quem ouviu falar.

Nem sempre estamos num bom dia, mas devemos sempre entender que nada dura para sempre, nem a sua raiva, e pode passar uma mensagem negativa para os outros porque você não estava legal para ouvir aquilo.

Outro dia li uma mensagem que dizia: “Não temos problemas, temos situações que podemos resolver, e temos muito tempo para isso. O único problema na vida é uma pessoa acamada e que não tem mais o que ser feito. Isso é um problema, porque não tem como resolver.”

Se pensássemos desta forma não sofreríamos tanto, entenderíamos que há tempo para resolver, pois tudo passa, é só saber esperar e agir. Positividade nunca será tóxica, quem é tóxico é a pessoa que ouviu e não entendeu.

O QUE VOCÊ NÃO FEZ AINDA HOJE?

Nada do que eu queria, nada do que planejei, nada do que todos os dias levanto com intenção de fazer se concretiza. Por que será? São sonhos mesmo ou ideias que só existem na nossa cabeça? Precisamos parar e pensar o que é mesmo prioridade em nossa vida e o que são devaneios, sonhos que sabemos que nesse ou naquele momento não serão possíveis. Precisamos de tempo para que as coisas aconteçam, planejamento, foco.

 De certa forma estamos vivendo num mundo do faz de conta, acreditando em fadas e duendes que não existem, acreditando que podemos tudo e precisamos de tudo, mas não. Metade do que desejamos não é necessário para nós, são sonhos. O consumismo desenfreado em ter, o sonho de criança que quando se realiza perde a graça, e depois queremos mais e mais e mais… E nunca estamos satisfeitos. Existe um vazio enorme no EU interior, porque na verdade o que nos faz felizes são momentos, pequenas coisas que não têm valor material, mas nos inundam a alma de sentimentos bons, de paz.

 Você já se perguntou o que não fez hoje? Ou melhor, o que não fez e gostaria muito de fazer, mas o tempo, a correria, os horários, a vida, não lhe permite fazer? E assim deixamos para amanhã, semana que vem, quem sabe ano que vem, e não chega. Carregamos as frustrações do que queríamos ser, mas não tivemos tempo… E amanhã, você vai deixar de fazer o quê? Ou vai fazer…?

Solitude e solidão

O que solitude tem a ver com solidão? Nada. São estados distintos de se sentir, enquanto um traz o vazio de estar sozinho, isolado, o outro é gostar da sua companhia, uma escolha, seu momento sozinho.

Tem quem não suporte estar sozinho, não gosta do barulho da própria mente, é como se não quisesse se auto entender. Realmente é difícil para o ser humano se encontrar com os problemas que o atordoam, mas também é a melhor forma de compreender e refletir.

Quando estamos sozinhos encaramos quem somos de verdade, o que pensamos e o que queremos da vida. Não é raro pegar alguém sozinho pensando em voz alta e até dançando sem problema algum, é estar longe do julgamento das pessoas, é ser livre.

Estar sozinho é encontrar-se consigo mesmo, descobrir os vários ‘Eus’ que existem em você, a pessoa a qual é de verdade. O direito a estar no silêncio, a ouvir uma música, meditar, simplesmente silenciar.

Já a solidão é triste, uma pessoa solitária está isolada da sociedade ou até mesmo da família, apesar de às vezes estar acompanhada, mas se sente só. Isso é a pior forma de sentir solidão. A tristeza traz sofrimento, o não pertencimento, podendo desenvolver distúrbios psíquicos como a depressão. A condição de sentir solidão não traz bem-estar psicológico.

É importante cuidar da saúde física e mental para ter uma qualidade de vida melhor, fazer o que gosta, o que traz prazer. Pode ser ouvir música, ler, caminhar. Seja o que for, desde que de alguma forma não se sinta só. Não deixe que sua condição mental afete sua saúde física. Sentir-se bem e em paz é o melhor remédio para salvar a sua vida.

Embora nasçamos sozinhos e morramos sozinhos, o meio tem que ser vivido com pessoas, tem que ter amor, afeto, tato, carinho, alegria e tudo mais que a vida oferece. Como diz a música de Lulu Santos: “Vamos viver tudo o que há pra viver”

A solitude é necessária, mas a solidão, não.

O sentido da música na vida

Quem me acompanha sabe o quanto amo a música brasileira, já fiz várias críticas em biografias de nossos artistas da MPB. Cantam nossa língua, a nossa cultura.

Nas biografias vi a dificuldade que encontraram e ultrapassaram para se consagrarem e serem reconhecidos como artistas. Nunca foi fácil, a trajetória também não. Fizeram história, alguns passaram por exílio numa época em que tudo era proibido, uma simples menção já era considerada uma afronta. Tudo mudou, muitos já partiram, outros estão se aposentando, mas conquistaram uma legião de fãs espalhados pelo país.

Esta semana Caetano Veloso completou 81 anos, está deixando os palcos, meu ídolo. Me apaixonei pela literatura quando estava na faculdade de letras, pois na aula de interpretação de texto tinha um professor muito descolado e culto que nos dava letras de músicas do Caetano, dificílimas de decifrar, mas de extrema cultura, um linguista brasileiro.

Assim como ele, Gilberto Gil, Milton Nascimento e nossa mais recente perda, Rita Lee, foram artistas revolucionários em uma época em que se arriscaram a fazer música no país, sofreram com a repressão, mas se consagraram, eternizaram músicas que são ouvidas até hoje. Lotam shows, emocionam, inspiram novos artistas, estão deixando um legado na cultura.

Música, para quem gosta, tem sentimento e te leva a um passado cheio de saudade, um presente que te mostra a vida leve e solta. Dançar, cantar, emocionar faz bem pra vida, faz a sua endorfina dar prazer, felicidade – aqui entram os momentos de felicidade, a alegria, gostar da vida como ela é. Nesse momento não tem rico nem pobre, nem poder, nem nada, existe você e seu sentimento, o viver a vida e só.

Sou de uma família totalmente musical, cresci em meio a festas de família com muita música e alegria. Meus pais se conheceram na Rádio Clube, minha mãe cantava e meu pai fazia parte de um conjunto de músicas de samba canção, tocava violão e cavaquinho, tocava não, toca ainda. Aos 86 anos, todos os dias, acompanha pela internet conjuntos de chorinho com seu violão, é uma alegria de viver! Minha mãe ainda se arrisca a cantar, e canta bem!

Meus tios também se conheceram na mesma rádio, ele tocava bateria e ela cantava (in memoriam) , nenhum deles seguiu a carreira, mas influenciaram toda a família, filhos e sobrinhos, e assim cresci e aprendi a gostar de música, de todo tipo.

Não há como se sentir triste ouvindo música, é bom esquecer um pouco as coisas ruins que acontecem lá fora, relaxar, sorrir e até chorar de emoção. Faz bem.

Abaixo deixo um trecho da música “GilGal do álbum Meu Coco” de Caetano Veloso.

“Ele me ensinou
O sentido do som
E eu quis ensinar
O sem som do sentido”

Quem é um anjo?

Você é um anjo? Temos anjos na nossa vida vez ou outra, mas são ocasiões, fatos isolados. Dizer que alguém é um anjo acho que não combina com nossa atual situação social mundial, pois temos mais maldosos do que anjos.

Todos nós podemos ser parcialmente bons e maus, dependendo da situação. Por mais que tente ser um, tem momentos que não dá, perder a paciência é humano. Por isso não acredito em falsos anjos falando com voz baixa, em compasso lento, quase chorando. Prefiro alguém que fale com consistência – isso não significa grosseria; falar de verdade.

Certo dia passei por uma pedinte na rua, sentada no chão com uma criança de colo, quando me pediu e não dei – quem anda com dinheiro na bolsa hoje em dia? Ela simplesmente blasfemou contra mim em voz alta, mas quando pediu a voz era baixinha, como de quem não tem mais forças.

Está difícil acreditar nas pessoas. Presenciamos fatos que até chegam a nos deixar mexidos e com dó, mas como nada fica escondido por muito tempo, a verdade sempre aparece e assim descobrimos a verdadeira face.

Os comportamentos estão cada vez mais evidentes, ninguém mais consegue enganar. Já vi muitas pessoas levarem embora tudo o que acreditei um dia, pessoas que vestiram máscaras, personagens que se dissiparam. O modus operandi da farsa está em risco, estão seguindo um padrão de comportamento aos quais muitos aderiram, mas também muitos já deixaram transparecer.

Hoje nos deparamos com a maioria dos jovens vivendo essa farsa, estão seguindo um caminho na vida ‘adulta’ em busca do material, sem rumo. Procuram chegar em algum lugar, mas não querem alcançar com os próprios pés. Daí o vitimismo é uma estratégia genial. Ninguém ensinou que o mundo lá fora não adianta chorar? Somos descartáveis.

Por isso não existe um anjo humano, poucos querem fazer o bem, apenas receber. Mas como, se ninguém quer dar? É melhor seguirmos nosso caminho contando com a gente mesmo, às vezes somos os nossos próprios anjos e às vezes também somos o nosso próprio azar.

Selva de pedra

Hoje (27 de julho) eu publicaria uma crônica diferente, sobre outro assunto, mas aqui em São Paulo aconteceu um fato muito chocante, e mais uma vez venho falar sobre o machismo abusivo que, nós mulheres, estamos enfrentando, e. mais que isso, ainda assim sendo julgadas.

Uma garota de seus vinte e poucos anos foi brutalmente agredida por um ‘homem’ que passeava com seu cachorro. Para infelicidade da garota, o pneu do carro que dirigia pegou no meio-fio e bateu na guia da calçada, assustando o cachorrinho. E este assistiu, ao lado de seu tutor, mansamente, a violência mais descabida a uma mulher. Em provável ofensa verbal, como mostra nas câmeras, a moça se aproxima e leva uma cabeçada, a qual quebrou seu nariz, passando por cirurgia, e afundamento da face. Apenas porque teria assustado o cachorrinho, que estava tranquilo ao lado do agressor.

Claro que ele está sumido, afinal, ele está certo. Ser macho com uma mulher é fácil, mas na hora de encarar a Justiça o machismo some. Infelizmente é o que temos hoje, homens achando que ser macho é ser violento, agredir psicologicamente e fisicamente uma mulher, mas assumir os erros e encarar os desafios que a vida traz, ah! isso não querem não.

Esse tipo de comportamento está gerando o fim das relações interpessoais, não há mais o respeito, a preocupação. Estamos numa selva de pedra habitada por muitos animais racionais que estão voltando a se comportar como animais irracionais, ganhando a batalha no ataque físico porque deixaram de pensar, pois o impulso é animal, nunca foi humano. As mulheres não podem mais ser alvo desses homens agressivos, a sociedade enlouqueceu.

Ainda tem quem defenda uma atitude dessa e julga a mulher, dando adjetivos sem saber o fato real, apenas suposições. Seja qual for a suposição, nada justifica a violência, e se para você justifica, então não há mais o que fazer. Se um dia disseram que o fim do mundo chegaria, acho que estamos perto do fim.

A tragédia da vida

“A vida é uma tragédia, não um drama”

(José Celso Martinez)

A melhor frase que ouvi nos últimos tempos para definir a vida. Passamos a vida em busca de alguma coisa que nos traga satisfação, acalento para a alma, mas frequentemente não acontece como planejamos, quase sempre somos surpreendidos com aquilo que não queremos. Qual seria o motivo para não acontecer como se imaginou? Porque não temos o controle de nada, não entendemos que temos um propósito para esta vida, e que certamente insistimos naquilo que não é para ser. Está dando tudo errado? Não, está dando tudo certo, talvez aquele sonho seria a pior coisa que poderia acontecer na sua vida.

Sabe aquela frase “remando contra a maré”?, é isso, não chega a lugar nenhum, depois acha que nada dá certo, só acontece com você; é um drama, quando na verdade demoramos a entender que o caminho é outro, talvez até chegue aonde deseja, mas antes precisa aprender algumas coisinhas, conviver com pessoas que não vai gostar, passar por situações que não estavam no seu programa de satisfação, mas é o que tem que ser.

A tragédia da vida está justamente nas frustrações que nós mesmos causamos, nas expectativas que colocamos nas coisas e nas pessoas e que não nos agradam. A tragédia é que são mais espinhos do que flores, muitas pedras no caminho para ultrapassar, uma batalha após a outra.

Nada volta da mesma forma que foi um dia, seja bom ou ruim sempre será um novo tempo, um novo lugar, uma nova situação. Entre o passado e o futuro viva o presente, é aqui que está se construindo o futuro, é agora que se prepara, não para o que vai chegar, mas como será o resultado do que está sendo feito hoje. O passado não volta mais, só é capaz de voltar na sua memória, deixe ir, não há mais como mudar.

Mesmo que nada tenha acontecido como queria, tenha a certeza de que aconteceu como deveria, e não adianta fugir e nem culpar ninguém, na sua vida quem rema é você, são suas escolhas que te definem, se você não mudar ou não quiser entender você será o único culpado da maré te desviar do seu caminho. Está certo que às vezes entramos no barco com alguém que nos levará para as pedras, e, mesmo assim, entrou no barco porque quis.  

Essa tal felicidade

 Palavrinha muito falada e pouco vivida. Por que todo mundo quer ser feliz? Você sabe a definição do que é felicidade? Vamos conversar sobre o assunto?

Ser feliz, estar feliz, fui feliz. Várias conjugações de ser, estar e ter sido. Mas na vida real, sem regra gramatical, o que esse sentimento significa? Olhe para sua própria vida e defina. Você se sente feliz em tempo integral, todos os dias? Se a resposta é não, você está certo, o conceito dessa palavra é feito por momentos felizes e outras séries de fatores que muita gente pode não concordar. Um exemplo disso é a  ética com a vida e o prazer nas pequenas coisas.

A grande maioria associa felicidade a poder, riqueza, fama, prazeres. Não é. Somos seres que precisamos mais do menos, se é que me entende. Uma pessoa que busca a fama sonha com o reconhecimento, ser amado, reverenciado, assim como na riqueza, quando se conquista tudo o que é material, luxo. E o que se precisa realmente para ser feliz?

Se você se desgastar com a busca incessante desses prazeres sem deixar tempo para seu descanso, para sua paz, adoecerá seu corpo, e você precisa que ele esteja saudável para viver. Já os prazeres momentâneos são inerentes a você. Dormir, comer, são necessários e naturais, é vida.

Acontece que, enquanto se busca a felicidade naquilo que não é necessário para sua vida, na verdade está tentando não sentir dor, mas a dor também é necessária e acaba. Ela vem, você aprende, sobrevive e ela vai embora. O medo faz com que se encontre prazeres, muitas vezes destrutivos.

Se somos seres livres, por qual motivo nos apegamos às coisas e pessoas achando que assim seremos felizes? Porque temos medo de admitir nossos erros, nossas escolhas.

Mas e se focarmos nas pequenas coisas, que nem são pequenas, mas aos olhos do ser humano passam desapercebidas grande parte dos dias? A natureza, a brisa, o sol, o pé na areia, uma flor, o mar, a serenidade de um rio, a água que se bebe, a comida que te alimenta. Mas o homem parou de dar importância para isso, colocando em evidência só os seus interesses, e hoje estamos convivendo com a revolta da natureza, nosso corpo está adoecendo mais pelo ecossistema errado, pela insensatez, pelo descaso com o que realmente importa. E todos querem a tal da felicidade.

Como ser feliz num mundo em que a busca pelo prazer é mais importante do que a saúde? O dinheiro e as coisas tomaram um lugar primordial na vida. Volto a falar da tecnologia que nos levou à loucura e ao sofrimento, a frustração do Ter, porque o Ser já nem faz falta mais.

Pessoas que se inflamam por não aceitar a opinião do outro, o pensamento entra em atrito com o sentimento e vira essa baderna que assistimos todos os dias. Matam, agridem sem prudência nenhuma. É necessário medir o que importa. Está se dando mais atenção ao que não importa, por isso a felicidade não chega e nem vai chegar.

Ser feliz não é ostentar, sorrir ou mostrar o que se tem, ser feliz é estar em paz com sua vida, é entender que o essencial é o que basta. Virtude, ética, razão e emoção andam juntas, nem muito nem pouco, tem que haver equilíbrio. A felicidade é muito menos do que temos e do que somos, é uma tentativa de fugir da dor. Não mude pelo mundo externo, pense e sinta na mesma sintonia, se não houver sinergia não haverá equilíbrio.

Se preocupe mais com suas escolhas, o seu tempo aqui tem prazo de validade. Você é a sua história, os seus sentimentos, o que vai deixar na lembrança de quem te conhece. Você nasceu pelado e vai embora sem corpo.

 

 

Da geração de 50 para 2000

O que mudou da geração dos anos 50 até hoje? Na década de 50 foi quando tudo começou a acontecer, principalmente no Brasil. A indústria automobilística se instalou por aqui, a economia do país começou a crescer, o desenvolvimento chegou, o Brasil não era mais um lugar à parte do mundo.

Surgiu a Bossa Nova, o ‘rock’ in rol, o chiclete, a brilhantina, o rabo de cavalo, as saias rodadas, a juventude começou a descobrir um novo mundo. A rebeldia estava presente, e a perspectiva de futuro era grande, muitos foram os jovens que brilharam em suas carreiras. O que diferenciava do nosso mundo de hoje era a educação que prevalecia no meio da sociedade, a hierarquia.

A partir daí, as próximas décadas viriam com mais transformações, na vida, no comportamento, nas conquistas e lutas pelos direitos. A política era relevante, a população era engajada, mas a repressão tomava lugar preponderante, e muita coisa aconteceu. Jovens foram torturados, exilados, a imprensa não tinha liberdade, o medo predominava. Os jovens dos anos 60 e 70 que sofreram com sua coragem na mudança do comportamento, no sexo, na paz e amor dos ‘hippies’ que transformariam uma geração.

Nos anos 80 foi a revolução no modo de vida, no crescimento econômico, as diretas já, que mudaram totalmente nossa história. Em 1985, o Brasil se libertou e nossa sociedade passou da ditadura (regime militar) à democracia. Foi um período histórico, que tenho orgulho de ter vivido, hoje estudado e processo importante do nosso país.

A discoteca, as músicas inesquecíveis daquela época, a moda de lurex, calça boca de sino, os cabelos femininos, como Farrah Fawcett, o ‘glamour’, a vida de verdade sem ostentação, simplesmente com vontade de viver intensamente, estudando, trabalhando e tendo em vista um futuro num país que tinha tudo para chegar ao topo do primeiro mundo, com seu povo alegre e acolhedor. Mas a partir do fim dos anos 90 as mudanças, ainda mais radicais, nos inseriram em um novo século, que mudaria tudo o que não imaginávamos; então, o que aconteceu depois do ano 2000?

Parece que tudo virou de cabeça para baixo, ainda que nos sintamos transformados com a chegada da ‘internet’, do celular e da aposentadoria da velha e boa máquina de escrever, foi bom. Tudo começou a mudar rápido, as transformações não pararam de chegar, nem tínhamos nos acostumados com uma coisa e já vinha outra. Isso começou deixar as pessoas ansiosas, com sede de informação, e com pressa de tudo. De um ICQ e MSN só no computador passamos para um ‘smartphone’ que faz tudo. Filma, grava, manda mensagem, liga, recebe ligação, faz foto de todo tipo, fala e, ao que parece, fotografa seu cérebro também.

Imagina você lendo uma propaganda e de repente começa a aparecer em tudo o que você abre no celular! Daí você pensa. Como sabe que eu quero ver isso? Pois é, essa tal tecnologia sabe tudo mesmo, até o que você pensa. Dia desses assisti a um vídeo que falava sobre isso, fiquei assustada ao saber que esse pequeno aparelho que carregamos nossa vida dentro pode ser o maior traidor, mas no qual confiamos. Será que isso é bom? Eu acredito que não, quero ter liberdade e privacidade nos meus pensamentos, não quero que um computador tenha domínio sobre mim nem que destrua vidas por tanta facilidade.

Existem meios para tudo, te rastreiam e podem te colocar em situações bastante complicadas com toda essa modernidade, que, ao mesmo tempo que é bom, não é. Um assunto bastante difícil de falar, afinal muita gente gosta de tudo isso e não imagina como é viver sem. Mas, assim como eu, muita gente sabe como era receber um telegrama, uma carta de um amigo distante, ligar do orelhão e acabar a ficha no meio da ligação, levar convite de casamento na casa dos convidados e servir picles espetado no melão envolto com papel alumínio.

 É, era simples, diferente, mas a gente era mais feliz. As fotos que a gente tirava só ia ver depois que revelava, algumas queimavam, outras saíam sem cabeça, e estava tudo bem, porque o sorriso na foto era por pura felicidade e não para provar uma felicidade que não existe.  A discoteca era um lugar para dançar, se divertir e poder dançar aquela música lenta com seu crush, palavra que nem existia naquela época. Aliás, existia sim, mas era marca de refrigerante. Os amigos eram de verdade, a vida era mais simples, o amor era de verdade, a comida não era gourmet, ninguém tinha vergonha de gostar de pão com mortadela. A gente era feliz. E você, é ou ainda é feliz?

Àquele diário!

Lembra daquele diário que era segredo absoluto trancado a sete chaves? Era uma forma de desabafo para colocar pra fora os mais secretos desejos, acontecimentos e mesmo raiva de alguém ou da gente mesmo. Te fazia muito bem escrever tudo aquilo que não queria contar pra ninguém. Fazia mesmo e você nem sabia. Escrever sobre você te faz compreender as verdades que não quer enxergar, pois nesse momento não dá para mentir, só você está lendo e sabe o que sente.

É a forma mais sábia de se conhecer, o autoconhecimento. As palavras têm força tanto na escrita quanto na fala, mas escrevendo está gravando tanto na mente quanto no papel. A maneira de se fazer um diário é boa porque não vai ter o julgamento de ninguém, é só pra você mesmo, e isso traz segurança para colocar todo o seu sentimento, e a partir daí consegue desvendar seus medos e inseguranças.

Será que é por isso que hoje existe tanto problema emocional? Ninguém mais tem um diário, nem mesmo os adolescentes. Quantos suicídios acontecem, e não tem idade para isso. O número de problemas emocionais só aumenta, principalmente depois da pandemia. Nunca se ouviu falar tanto em terapia, ansiedade e depressão como agora. Acho que éramos mais inteligentes e não sabíamos.

Hoje o diário são as redes sociais, aquilo que não era pra ninguém saber agora é escancarado, e ainda precisa ter likes. Mas o estranho desse diário virtual é que só se mostra a felicidade total, todo mundo se ama, está sorrindo, em lugares maravilhosos, amigos, roupas, lugares, um luxo! Será?

A vida real atrás de tudo isso ninguém quer mostrar. Lembra daqueles medos e inseguranças, os problemas familiares, amorosos e com os amigos? Isso não existe no novo diário, e onde resolvem? No consultório do terapeuta e do psiquiatra, porque a vida é de mentirinha.

Não precisa ficar mostrando todos os seus passos, todas as suas conquistas, isso causa sofrimento porque a necessidade de mostrar que tá tudo lindo te angustia. Aquilo que é importante pra você pode não ser para quem vai ver. A felicidade é sua e não precisa de aplauso. Nós vivemos como somos por dentro e não como somos por fora. Viva mais off do que on, no fim das contas é só com você mesmo.

 Costela de Adão 

Já escrevi muitos textos sobre mulher, seus direitos e seu lugar nesse mundo machista, um mundo cada vez mais crescente. É incrível que isso ainda aconteça em pleno século XXI, ano 2023, que nem acreditávamos que existiria. Aprendemos que quando chegasse o novo milênio o mundo acabaria, não aconteceu e o machismo continua por aqui, triste realidade. O mundo não acabou, mas acabou o encanto, a simplicidade da vida que vivíamos – hoje, se não for pra mostrar aos quatro cantos, não tá valendo.

Como podemos ter alguém do sexo feminino à frente do mundo dominado por homens? Mulher ter opinião, posicionamento em discussões, liberdade, autonomia? Afinal, se nos contaram que fomos feitas pela costela de Adão é porque somos submissas aos homens, por isso eles mandam. Ah!! agora tá explicado. Não, não devemos obediência nem somos seres a servir um homem só por um pedaço de costela. O que é uma costela perto do que é uma mulher de corpo e alma? Tanto é que a responsabilidade de colocar um Ser no mundo foi dada à mulher e não ao homem.

Será que precisará de mais mil anos para que a mulher seja compreendida como um Ser livre em suas ações, com capacidade para ser e fazer o que quiser? Sem que haja machistas colocando lugares, restringindo e menosprezando só por ser mulher? Como ainda pode ter quem fale que a mulher passa dificuldade por não ter um marido, um companheiro, seja qual for a palavra usada, como pode isso?

A violência contra a mulher para ser considerada uma violência precisa ter morte, ficar desfigurada? A maldade contra a mulher não tem limites, e muitos por aí estão sossegados por não terem matado, ainda. Para os ignorantes é preciso explicar que violência não é apenas física, mas verbal, psicológica, cárcere, escravidão, todas são violências. Portanto, para quem acha que por não bater não está praticando um ato violento, fique atento, muita coisa acabou com a chegada do ano 2000, mas as mulheres ficaram mais atentas a quem são de fato.

Não podemos e não devemos aceitar insultos e desprezos. Grandes mulheres fizeram história de lutas e de conquistas, e vamos continuar mostrando que podemos mais do que nos é ofertado. O mundo não existiria se não fosse o homem e a mulher, por isso não existe o melhor. É preciso aprender a ouvir, podemos transformar, somar, dividir. Precisamos do olhar humano, do amor, do respeito daqueles que um dia chegaram ao mundo pela força de uma mulher.